Sáb. Jul 20th, 2019

Roncalli na Bulgária e a diplomacia da caridade

A poucas semanas da Viagem Apostólica do Papa Francisco à Bulgária, recordemos do jovem Angelo Giuseppe Roncalli, futuro Papa João XXIII, cujos gestos e palavras fizeram com que caísse na graça das autoridades locais e do Sínodo Ortodoxo, durante a missão do Visitador Apostólico, entre 1925 e 1934.

A cordialidade do homem – que um dia se tornará universal e amada – é também um ótimo “facilitador” para aquele diplomata de rosto arredondado que chega a Sofia em 25 de abril de 1925.

Quando Angelo Giuseppe Roncalli, de 44 anos, põe os pés na capital búlgara, leva consigo uma longa lista de “instruções” datilografadas da Propaganda Fide, sobre seu novo cargo de Visitador Apostólico – a ele confiado um mês e meio antes por Pio XI – e também um par de sólidas qualidades humanas que se revelarão o plus no delicado trabalho que o aguarda.

Desde os primeiros encontros com os altos escalões do reino do czar Boris III e a frágil hierarquia eclesiástica, Roncalli desperta a simpatia e a perspicácia, uma feliz combinação de duas qualidades, com a primeira voltada a tornar mais persuasivas as argumentações da segunda, mesmo sobre temas espinhosos e nós nunca antes desfeitos. Dons que se somam a um coração cheio de fé, que trinta anos mais tarde levarão aquele plácido e jovem bispo a “ver” e desejar uma Igreja renovada por um Concílio Ecumênico.

“Obediência e paz”

Em 2016, a Livraria Editrice Vaticana publicou um livro para celebrar os 25 anos de relações diplomáticas entre a Santa Sé e a Bulgária. Nas páginas conclusivas, o curador do livro, o búlgaro Kiril Plamen Kartaloff, correspondente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas e ex-professor da Universidade Católica de Milão, coletou um pequeno tesouro de documentos inéditos retirados do Arquivo Secreto do Vaticano, da Secretaria de Estado e do Congregação para as Igrejas Orientais.

Entre missivas e cópias de documentos originais, o que Roncalli é em suas atitudes também emerge das cartas. O mesmo pragmatismo, inteligente e ao mesmo tempo “tranquilo”, de um homem que se dedica com dinamismo em melhorar a situação da Igreja local e das relações ecumênicas, sem porém expor os próprios méritos nem tornar pesadas as indicações dadas à Cúria Romana com o nervosismo de quem gostaria imediatamente o placet para torná-las operacionais. Um estilo no fundo bem expresso pelo seu lema episcopal “Obedientia et pax”. E condimentado aqui e acolá com uma pitada de ironia, típica da pessoa que mitiga a seriedade da correspondência protocolar.

A visita? Façamo-la breve

Um exemplo é a negociação cartusiana com a qual Roncalli cria rapidamente as condições para criar uma Delegação Apostólica, um dos sucessos mais importantes de sua estada na Bulgária. O projeto é o de chegar a ter no país uma representação pontifícia, precisamente uma Delegação, que apesar de não ter o status de uma Nunciatura, é mais estável do que a missão que o novo bispo de Bérgamo está realizando.

Já em março de 1926, Roncalli é capaz de listar claramente em um relatório enviado ao Vaticano “as razões pelas quais uma Delegação Apostólica parecia apropriada em Sofia”, como escreveu ao Cardeal Luigi Sincero, na época pró-secretário da Congregação para as Igrejas Orientais e um de seus chefes diretos. Ao que, espirituosamente e quase em voz baixa, ele sugere mais tarde, quando da Santa Sé contemporizam, que também uma Visitação Apostólica pela sua natureza provisória não pode que não seguir “a boa lei da cortesia”, aquela para a qual são boas as “visitas curtas”.

Calma e sagacidade

Quando, depois de mais de um ano, a carta permanece sem resposta, Roncalli pega papel e caneta e a reescreve ao cardeal Sincero, sempre com paciente elegância. “O Santo Padre em uma audiência em setembro passado, falando-me sobre as possibilidades de desenvolver minha missão como Visitador, disse-me para eu ficar em silêncio a este respeito, trabalhando com calma e esperando (…). Em obséquio àquelas augustas orientações, trabalhei silenciosamente e na espera: em obséquio às mesmas, eu agora me permito comunicar que os acontecimentos políticos desses meses …” e assim por diante, para explicar o porquê seria melhor tomar essa decisão. Desde que, acrescenta ele permitindo-se uma cutucada, “se pretenda realmente dar um impulso eficaz e contínuo ao trabalho de restauração do catolicismo neste país”.

Sem se deter

Obra de dar nova vida à Igreja local, à qual Roncalli dedica-se com uma vivacidade que permaneceu no coração, assim como nos anais da Bulgária. O enviado do Papa se move em um ambiente social e eclesial marcado pela guerra. No dorso de uma mula ou dentro de um carro, ele vai aos povoados e paróquias esquecidas reanimando-as, fazendo falar antes de tudo a solidariedade.

A Bulgária é um país orgulhosamente ortodoxo, mas aquele bispo católico concreto e humano, logo passa a ser apreciado e respeitado. Com a comunidade católica não é diferente. Roncalli faz longas visitas, sua presença torna-se um reflexo tangível daquela de Pio XII – o Papa que olha com bonevolência de Roma – e quando em 1931 a Delegação Apostólica se torna realidade, e Monsenhor Roncalli nomeado como seu primeiro responsável, a satisfação é palpável em quase toda parte, mesmo dentro do Sínodo ortodoxo, inicialmente rígido em relação ao Visitante pontifício.

Sempre no coração

A notícia da nova nomeação chega a ele em outubro em “Sotto il Monte”, onde Roncalli está passando um período de férias com a família. Em 23 de outubro, escreve à mão a Boris III para informá-lo da criação da Delegação Apostólica e do encargo recebido de guiá-la. Mais uma vez, da pequena folha escrita à máquina, aflora o toque de amabilidade.

“De fato, por este fato, o humilde abaixo assinado não muda que o título”, escreve ele ao rei búlgaro, acrescentado: “Posso bem assegurar a Vossa Majestade que acima de tudo não mudará nem o coração nem o bom sentimento” que, assegura Roncalli, sempre “inspirou e apoiou” as relações com a família real.

Atesta isso também o cartão de felicitações escrito na véspera de Natal de 1934 para a rainha Joana de Sabóia, esposa de Boris III. O futuro “Papa Bom” está prestes a partir para Istambul como Delegado Apostólico na Turquia e na Grécia, mas não esconde o “pouco de tristeza, como acontece com cada agradável aqui embaixo”, devido ao fato de ter que deixar um país no qual encontrou uma segunda casa e dos governantes com os quais pode estabelecer relações bem mais do que formais. “Esse sentimento me acompanhará sempre, sempre, onde quer que a Providência me leve”.

Fonte: Vaticano News

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